Lauro Bacca: Cidades, rio e natureza

Coluna de Lauro Bacca, Jornal de Santa Catarina

Costumamos confundir cidade do futuro com cidade futurista, tipo antigos desenhos americanos da família Jetsons, onde a ideia da felicidade pessoal do amanhã estaria garantida por ágeis veículos voadores de transporte individual e no que há de mais sofisticado na tecnologia de uma ficção científica.

Não é assim que pensam os alemães e muitos outros povos ditos desenvolvidos. A praticidade e os confortos tecnológicos jamais dispensarão a simplicidade de espaços públicos abertos para todos e a noção de que as cidades são, acima de tudo, locais para as pessoas e para o convívio social e, embora possa parecer estranho, também convívio com natureza preservada. Ambiente urbano e natureza não são necessariamente excludentes.

A blumenauense Carolina Nunes participa há um ano na Alemanha de um programa sobre cidades e soluções, rios e cidades e como as pessoas enxergam a natureza. “Estamos pensando no convívio com a família e os amigos ou estamos pensando na cidade apenas como um local para nos deslocarmos de casa para o trabalho?”, questionou Carolina há um ano, na câmara de Vereadores local. “Nós é que precisamos integrar nosso mundo ao rio e à natureza e não o contrário”, continuou, lembrando que o grande desafio agora é vencer velhos tabus e transformar a teoria em prática. Aí entra o conceito da renaturação que também envolve formas de proteger cidades das enchentes, recuperar ambientes naturais e espaços públicos para o lazer.

Assino embaixo com Carolina. Há anos que questiono o projeto que pretendia fazer da margem esquerda do Itajaí-Açu um mero espelho da concretada margem direita em Blumenau. “Na Europa é tudo assim”, ouvi muitas vezes. Acontece que na Europa moderna os cursos d’água vêm sendo manejados de forma a aproximá-los o máximo possível do natural, onde técnicas sofisticadamente simples, criam uma maior diversificação de habitats, trazendo o que for possível de natural para o meio urbano.

Em Londres, lugares movimentados, como nos acessos ao metrô, exibem cartazes enaltecendo a importância de uma abelha ou de um molusco no equilíbrio ecológico e recantos naturais existem em qualquer parque urbano. Até nos jardins do Palácio de Buckingham, sede da realeza britânica, diversificada flora e fauna silvestre ocupam amplos recantos renaturados ao lado da relva roçada. No rio Tâmisa, logo acima do centro, gansos, cisnes e muitas outras aves e mamíferos nativos convivem com o ir e vir de embarcações e com o lazer e esporte humano de remos e caiaques, numa água limpa que outrora foi uma das mais poluídas do mundo. Exemplos a serem imitados.