Arquiteta catarinense pesquisa construção de cidades integradas

Do site da Federação Nacional dos Arquitetos.

A catarinense Carolina Viviane Nunes, 35 anos, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), desbrava novos territórios na luta pela construção de cidades mais integradas. A arquiteta, nascida em Blumenau (SC), desenvolve atualmente um estudo na Alemanha sobre Rios e Cidades, iniciado ainda na academia, em 2004.

Com pós-graduação em Arquitetura Sustentável pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) e MBA em Gestão de Negócios Imobiliários e da Construção Civil pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Carolina deve permanecer em Munique, onde reside atualmente, até o final deste ano para dar seguimento ao projeto. Depois disso, volta ao Brasil para desenvolver projeto com jovens.

A ideia, segundo ela, é pensar em cidades mais integradas com a natureza e focadas para o uso humano, priorizando o convívio entre as pessoas em espaços públicos. Na Alemanha, o projeto iniciou em novembro do ano passado, quando Carolina ingressou no German Chancellor Fellowship, programa que visa promover a carreira profissional dos participantes e criar pontes entre o Brasil e a Alemanha, dentro de um diálogo de sociedades modernas.

O projeto de Carolina pode ser conferido no site www.humanitat.com.br, criado com apoio do Sindilojas, IHB, Carton Druck e Todo Livro. O site reúne diversas ideias, artigos, fotos e vídeos.

Confira a entrevista:

1. Como e quando iniciou a sua pesquisa sobre Rios e Cidades?

O meu projeto na Alemanha começou em novembro do ano passado, mas a concepção se iniciou em 2004, quando eu ainda era estudante, na disciplina de Planejamento Regional. Eu tive contato com uma brochura publicada por Walter Binder, do Departamento de Água da Baviera, em que ele relata os objetivos e os estudos que deram base ao processo de renaturalização do rio Isar.

2. Qual é o objetivo desse estudo?

O meu estudo não é uma pesquisa acadêmica e específica. É uma pesquisa mais ampla e abrangente, com o objetivo de formar um pensamento de gestão. O projeto trata da construção de cidades mais integradas com a natureza e pensadas para o uso humano e convívio entre as pessoas nos espaços públicos – que são os lugares que pertencem a todos! E como isso foi feito tecnicamente e com a participação da sociedade, com estudos de caso na Alemanha e com passagens pela Holanda e Dinamarca. Enquanto no Brasil ainda seguimos o modelo europeu do século passado, de retificar os rios e concretar as margens, na Europa contemporânea busca-se renaturalizar os rios, ou seja, retirar/reduzir a interferência humana e buscar uma situação mais próxima da natural, para melhorar a proteção contra enchentes, a condição natural e criar espaços de lazer para a população.

3. Algum projeto será executado no Brasil? Há expectativa de quando isso possa acontecer?

Para executar projetos, é preciso apoio da população e da classe política. Também é preciso, é claro, de recursos financeiros, tanto para a parte de projeto quanto para a posterior execução dos mesmos. A renaturalização do rio Isar na área central de Munique custou cerca de € 13 milhões (sendo aproximadamente ⅓ disso para retirar entulhos da guerra) e os projetos custaram aproximadamente 10% desse valor. É interessante ressaltar que a ideia surgiu na década de 80, mas o projeto-piloto foi desenvolvido entre 1995 e 1999. Esses quase 20 anos entre a ideia e o início da execução foram de conscientização da população, de mudança de mentalidade e educação. Isso num tempo em que a propagação de ideias era mais limitada e o projeto era pioneiro.

Estou me capacitando para liderar estes projetos. Atualmente estou buscando recursos para viabilizar um projeto de mudança de paradigmas, engajando 500 jovens por ano na causa de rios e cidades no Brasil, já para o próximo ano, e promover um intercâmbio com a Alemanha.

4. Você foi recebida pelo presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. Como isso aconteceu?

Eu participo do programa German Chancellor Fellowship, destinado a potenciais influenciadores do futuro, do Brasil, Rússia, Índia, China e Estados Unidos. O programa é organizado pela Fundação Alexander von Humboldt, instituição com uma rede de mais de 26 mil pesquisadores – incluindo 54 vencedores do Prêmio Nobel – e está sob o patrocínio da Chanceler alemã. A recepção com o presidente faz parte do encontro anual da Fundação, no Schloss Bellevue, que é o palácio de recepção e a moradia oficial do presidente.

Além do presidente em junho, também fui recepcionada pela chanceler Angela Merkel na última quarta-feira (18/07), desta vez em um encontro restrito apenas a mim e aos meus colegas German Chancellor Fellows. Fomos recebidos no Bundeskanzleramt (a Chancelaria Federal Alemã). Também tivemos oportunidade de conversar sobre temas da atualidade com membros do governo e fomos recebidos no Auswärtiges Amt (Relações Internacionais), onde participamos de debates e conhecemos programas culturais. Durante o meu programa, participamos de seminários e viagens de estudos, em que tivemos contato com diversas instituições alemãs.

5. Como está o processo de desenvolvimento de pesquisa e prática de projetos neste momento no país?

Há pesquisas e iniciativas bem interessantes no Brasil. Poderia destacar um processo de renaturalização em Minas Gerais, que é voltado à recuperação ambiental, e o movimento Rios e Ruas, em São Paulo, que visa descobrir a cidade. O Brasil tem uma formatação interessante, com uma legislação que reconhece a água como bem de domínio público e os Comitês de Bacias. Nós arquitetos devemos estar mais presentes, já que planejamento regional e urbano é nossa atribuição profissional.

6. Qual a importância do processo de preservação de rios e cidades andarem juntas?

80% da população brasileira mora hoje em áreas urbanas e o rápido e enorme crescimento das nossas cidades não foi acompanhado por um aumento em qualidade de vida. Rios e margens são espaços públicos e podemos usar o potencial dos rios para reconectar as pessoas e a natureza. Parques lineares mais naturais, que propiciam o encontro, o lazer, a mobilidade e a saúde da população, ao invés de margens de concreto e rios enterrados. Considerando que o Brasil é o país mais rico em água e biodiversidade no mundo, integrar rios e cidades no Brasil é promover uma solução mais sustentável, que leva em conta o caráter natural dos rios e o promove o encontro das pessoas nos espaços públicos.